domingo, 15 de fevereiro de 2009

Trombando com a reforma

Ora, “essa vida de todos os dias”! Poderia ser menos complicada, mais simples, não fossem algumas invenções dos homens, para aumentar a preocupação dos comuns seres mortais.
Já não bastam as dificuldades em se arranjar emprego, a falta de dinheiro para se pagar as contas mensais ou os créditos em excesso, o caos urbano, o caos nos hospitais, a falta de transporte público adequado, e outras questões? Arranjam para nós, agora, uma nova reforma ortográfica, feita, dizem, com o objetivo de unificar o idioma português em todos os países que falam esta língua.
Com o perdão dos senhores doutores em língua portuguesa e de suas justificativas para a unificação do idioma, qual seria de fato a suma importância da referida medida? Ainda não se ouviu com clareza, alguém explicar com convencimento a necessidade de tal reforma. Afinal, até então, sempre conseguimos entender muito bem (quem sabe ler, claro!) a leitura de um texto escrito no português de Portugal, com ressalvas para algumas palavras diferentes e com significado específico daquele país. Afinal, a grande massa populacional brasileira não vivia lendo textos em português dos outros países irmãos de idioma, afastados por milhares de quilômetros de nós, brasileiros. E muito menos nunca mantivemos toneladas de correspondências com os habitantes desses países de semelhança lingüística. Que essa reforma então ficasse somente no topo das relações internacionais ou para o intercâmbio cultural das elites.
Mas enfim, alguém inventou ou decidiu que tinha que se unificar e a coisa aconteceu, para o desespero de milhares, talvez poucos milhões que já sabiam escrever, de forma correta ou quase que correta, o português brasileiro até noutro dia. “Começar de novo”, tal qual o título da canção de Ivan Lins.
Certamente, pelas regras atuais, este texto já está cheio de erros ortográficos. Já que “idéia”, não se escreve mais com acento. Agora será “ideia”, tal como “assembleia”, embora a pronúncia continuará sendo aberta e não “idêia” ou “assemblêia”. Se não foi para fazer uma puta confusão na cabeça dos atuais estudantes em estágio mais avançado ou na de quem já sabia escrever, foi para quê essa nova reforma? Há que se pensar que a resposta é difícil, pois, como já foi dito, não houve quem desse uma convincente explicação da necessidade de tal reboliço no idioma pátrio.
De concreto, temos até 2012 para aprendermos a escrever direito, tal como colocando dois erres em “autorretrato”, que até então se escrevia auto-retrato. E mais uma série de regrinhas que teremos que engolir. Ou voltaremos para a escola, ou teremos que comprar novos dicionários, gramáticas e todos os apetrechos necessários ao novo aprendizado. E haja dinheiro para acompanhar essa reforma da escrita, embora quem for a Portugal terá que compreender que “bestial” não é bem aquilo que entendemos aqui no Brasil, que “rapariga” lá é outra coisa, ou “bicha” não é aquilo que dizemos aqui no Brasil, por exemplo.
Mas, vamos em frente para ver no que vai dar. E com certeza vai dar naquilo que sempre deu. Ou seja, lá pra depois de 2012, a maioria de nós terá sempre dúvidas quanto a escrever esta ou aquela palavra em português. Os professores de português certamente vão se escabelar, os alunos se desesperarão nas provas e vestibulares, mesmo com o prazo de carência dado para a efetivação da reforma. E os editores de livros, gramáticas e dicionários irão faturar com as novas vendas.
Por acaso alguém já ouviu falar que o idioma inglês passou por reforma ortográfica? Isto para não citar o espanhol, que também é muito falado em várias partes do mundo. Muitos desses povos, que falam essas línguas, devem ter coisas mais importantes com o que se preocupar.
Bem, com reformas à parte, vamos agora entrar no Brasil do dia a dia. No Brasil da rua, da internet, do povão que luta para a sobrevivência diária. Qual vai ser a importância dessa reforma ortográfica unificada para esses que são a maioria do País? Se alguém souber a resposta, por favor, comente, fale, explique e, desde já, mil perdões, pela possível ignorância deste texto.
Quem tem acesso à internet e a usa em conversas e bate-papos, sabe que já foi criada uma ortografia específica para o português usado na rede. Tudo cifrado, tudo abreviado, verdadeiras expressões idiomáticas estranhas, que os jovens, principalmente, já se habituaram a escrever em sua comunicação. E que devem deixar chocados os senhores doutores da língua portuguesa.
Afora isso, Brasil adentro, os “pobremas” irão continuar na boca do povo. Que falarão, mas nunca saberão nem como se escreve essa palavra esquisita para nós, privilegiados – “pobrema”. O jogo do “framengo” será sempre assim por muito tempo. Existe um moço nesse interior brasileiro, que toma conta de uma chácara e cuja linguagem é surpreendente, mesmo sui-generis. Para ele, poço artesiano é poço “anestesiano”. Película no vidro dos carros é “pelica”, a marca Fiat é “Fit”, época é “épa”... E por aí vai. Tentem explicar essa nova reforma ortográfica para ele, a unificação da escrita do português e onde fica pelo menos Portugal.
Desculpem a ousadia, mas essa reforma ortográfica provavelmente não nos trará nada de concreto em termos práticos. Provavelmente não provocará as reformas políticas necessárias, as sociais, as reformas em nosso sistema judiciário, as reformas da maneira do ensino como um todo, e, sobretudo, não alterará a mentalidade reinante e muito menos o comportamento do homem brasileiro no que toca ao exercício pleno da cidadania. E mais, não vai alterar o teor dos discursos demagógicos e chatos de nossos políticos. Essa reforma não vai ensinar nem disseminar o respeito que deve haver entre os membros de uma sociedade como a nossa. Poderá, no mínimo, causar estresse, àqueles que se preocupam em escrever corretamente o idioma nacional.

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